No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus, e a tarefa do monge fiel seria repetir cada dia com recitante humildade o único evento imutável cuja incontroversa verdade se pode asseverar. Mas ‘vivemus num per speculum et in aenigmate’ e a verdade, antes de face a face, manifesta-se por traços (ai, quão ilegíveis) no errar do mundo, de modo que devemos decifrar-lhe os sinais fiéis, mesmo onde nos parecem obscuros e quase tecidos de uma vontade de todo tendente ao mal.
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“O Nome da Rosa”, Umberto Eco [primeiras linhas]

Pangloss ensinava a metafísico-teólogo-cosmolonigologia. Provava admiravelmente que não há efeito sem causa, e que, neste melhor dos mundos possíveis, o castelo de monsenhor barão era o mais belo dos castelos, e a senhora baronesa, a melhor das baronesas possíveis.
– Está demonstrado – dizia ele – que as coisas não podem ser de outra maneira: pois, tendo tudo sido feito com um fim, tudo existe necessariamente para o melhor fim. Observem bem que os narizes foram feitos para segurar óculos, de maneira que temos óculos. As pernas visivelmente foram instituídas para serem calçadas, e nós temos calças. As pedras foram formadas para serem talhadas, e para se construírem castelos com elas, de maneira que monsenhor tem um belíssimo castelo; o maior barão da província deve ter a melhor moradia; e, sendo os porcos feitos para serem comidos, comemos porco o ano inteiro: por conseguinte, aqueles que se arriscaram a dizer que tudo está bem disseram uma tolice; era preciso dizer que tudo está o melhor possível.
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“Cândido ou O Otimismo”, Voltaire (François-Marie Arouet)

- Não está, pois, claro como água, camaradas, que todos os males da nossa existência têm origem na tirania dos seres humanos? Basta que nos livremos do Homem para que o produto de nosso trabalho seja somente nosso. Praticamente, da noite para o dia, poderíamos nos tornar ricos e livres. Que fazer, então? Trabalhar dia e noite, de corpo e alma, para a derrubada do gênero humano. Esta é a mensagem eu vos trago, camaradas: Revolução! Não sei quando sairá esta Revolução, pode ser daqui a uma semana, ou daqui a um século, mas uma coisa eu sei, tão certo quanto o ter eu palha sob meus pés: mais cedo ou mais tarde, justiça será feita. Fixai camaradas isso, para o resto de vossas curtas vidas! E, sobretudo, transmiti esta minha mensagem aos que virão depois de vós, para que as futuras gerações prossigam na luta, até a vitória.
E lembrai-vos, camaradas, jamais deixai fraquejar vossa decisão. Nenhum argumento poderá deter-vos. Fechai os ouvidos quando vos disserem que o Homem e os animais têm interesses comuns, que a prosperidade de um é a prosperidade dos outros. É tudo mentira. O Homem não busca interesses que não os dele próprio. Que haja entre nós, uma perfeita unidade, uma perfeita camaradagem na luta. Todos os homens são inimigos, todos os animais são camaradas.
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“A Revolução dos Bichos”, George Orwell

- Ótimo - disse baba, mas os seus olhos não demonstravam lá muita convicção. - Pouco importa o que diga esse mulá; existe apenas um pecado, um só. E esse pecado é roubar. Qualquer outro é simples mente uma variação do roubo. Entende o que estou dizendo?
- Não, baba jan - respondi querendo desesperadamente entender. Não gostaria de desapontá-lo de novo. (…)
- Quando você mata um homem, está roubando uma vida - disse baba. - Está roubando da esposa o direito de ter um marido, roubando dos filhos um pai. Quando mente, está roubando de alguém o direito de saber a verdade. Quando trapaceia, está roubando o direito à justiça. Entende?
Eu tinha entendido sim.
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“O Caçador de Pipas”, Khaled Hosseini

- Por que gosta dele, srta. Cathy?
- Tolice perguntar: gosto e pronto.
- Nada disso. Tem que dizer por que motivo gosta.
- Vá lá; gosto porque ele é bonito e uma companhia agradável.
- Não me agrada essa resposta - foi o meu comentário.
- E porque ele é moço e alegre.
- Pior ainda.
- E porque ele gosta de mim.
- Assim, assim…
- E porque ele há de ser rico, e eu vou ser a senhora mais importante destas redondezas, e me sentirei orgulhosa do meu marido.
- Pior que tudo. Agora diga como é que a senhora gosta dele?
- Como todo mundo gosta. Tolice, Nelly.
- Tolice nenhuma. Responda.
- Amo o chão que ele pisa, o ar que o cobre, tudo o que ele toca e cada palavra que diz. Gosto do jeito dele, de tudo o que faz, gosto dele todo, inteiramente. Está aí!
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“O Morro dos Ventos Uivantes”, Emily Brontë

Os homens foram gerados sob essa lei para guardarem esse globo chamado Terra, que vós vedes, colocado no centro desse templo, e lhes foi dada uma alma, que provêm dessas fogueiras sempiternas que vós denominais constelações e planetas, que, redondos, esféricos e animados de espíritos divinos, descrevem suas órbitas circulares a uma velocidade maravilhosa. Por isso, não somente vós, Públio, mas também todos os homens piedosos, devem reter a alma dentro da custódia do corpo, e sem a permissão daquele que vos deu, não podem migrar da vida humana e se esquivarem da tarefa própria dos humanos determinada pelo deus.
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“Da República”, Cícero

É preciso que vos diga, na efusão de meu coração, uma verdade que ele sente profundamente e de que o vosso deve convencer-vos: é que, a despeito da fortuna, dos pais e dos nós mesmos, nossos destinos estão para sempre unidos e que não podemos mais ser felizes ou infelizes senão juntos. Nossas almas, por assim dizer, tocaram-se por todos os pontos os pontos e sentimos por toda parte a mesma coerência. (Corrigi-me, meu amigo, se aplico mal vossas lições de físicas.) A sorte poderá perfeitamente nos separar mas não nos desunir. Teremos sempre os mesmos prazeres e os mesmos sofirmentos e, como esses amantes de que me faláveis que têm, dizem, as mesmas reações em lugares diferentes, sentiríamos as mesmas coisas nos dois extremos do mundo.
Libertai-vos portanto da esperança, se a tivestes alguma vez, de ter uma felicidade exclusiva e de comprá-la e expensas de minha. Não espereis poder ser feliz se eu for desonrada nem poder contemplar com satisfação minha ignomínia e minhas lágrimas.
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“Júlia ou A Nova Heloísa”, Jean-Jacques Rousseau

Emma ficou pensando de onde vinha a falácia de que havia algo de irresistível em homens engraçados. Cathy não desejava Heathcliff por ele ser engraçado.
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“Um Dia”, David Nicholls

Há certos julgamentos de Deus que a razão humana não pode conhecer pelas suas próprias forças, mas pode elevar-se até ele com o socorro da fé nas verdades que nos são reveladas pelas santas Escrituras.
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“Da Monarquia”, Dante Alighieri

A verdadeira filosofia funda-se na crença de que a riqueza autêntica do homem não se encontra na satisfação das necessidades, nem em ‘que nos tornemos senhores e proprietários da natureza’, mas em sermos capazes de ver o que é - a totalidade daquilo que é.
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“Que É Filosofar?”, Josef Pieper

Se achamos que os políticos são, em sua maioria, pouco dignos de confiança, corruptos, incompetentes e assim por diante, devemos verificar se esta nossa opinião não se estende também a outros setores e categorias da sociedade, tais como médicos, mecânicos, banqueiros, técnicos de televisão, motoristas de táxi, açougueiros, comerciantes, advogados. Pois aquilo que se costuma chamar, equivocadamente, de ‘classe política’ nada mais é do que um grupo de pessoas surgidas dentro de nossa própria sociedade. Não se trata de marcianos ou de animais com mentes e organismos diversos dos nossos. Se todos eles são ruins de forma tão radical, o corolário é que todos nós somos ruins, já que, parafraseando uma frase bíblica, uma árvore boa não pode dar tantos frutos maus.
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“Política - quem manda, por que manda, como manda”, João Ubaldo Ribeiro

Um imenso animal leiteiro aproximou-se da mesa de Zaphod Beeblebrox. Era um enorme e gordo quadrúpede do tipo bovino, com grandes olhos protuberantes, chifres pequenos e um sorriso nos lábios que era quase simpático.
- Boa noite - abaixou-se e sentou-se pesadamente sobre suas ancas -, sou o Prato do Dia. Posso sugerir-lhes algumas partes do meu corpo? - Grunhiu um pouco, remexeu seus quartos traseiros buscando uma posição mais confortável e olhou pacificamente para eles.
Seu olhar se deparou com olhares de total perplexidade de Arthur e Trillian, uma certa indiferença de Ford Prefect e a fome desesperada de Zaphod Beeblebrox.
- Alguma parte do ombro talvez? - sugeriu o animal. - Um guisado com molho de vinho branco?
- Ahn, do seu ombro? - Disse Arthur, sussurrando horrorizado.
- Naturalmente que é do meu ombro, senhor - mugiu o animal, satisfeito -, só tenho o meu para oferecer.
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“O Restaurante no Fim do Universo”, Douglas Adams [série “O Mochileiro das Galáxias”]

O principal problema - um dos principais problemas, pois são muitos -, um dos principais problemas em governar pessoas, está em quem você escolhe para fazê-lo. Ou melhor, em quem consegue fazer com que as pessoas deixem que ele faça isso com elas.
Resumindo: é um fato bem conhecido que todos os que querem governar as outras pessoas são, por isso mesmo, os menos indicados para isso. Resumindo o resumo: qualquer pessoa capaz de se tornar presidente não deveria, em hipótese alguma, ter permissão para exercer o cargo. Resumindo o resumo do resumo: as pessoas são um problema.
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“O Restaurante no Fim do Universo”, Douglas Adams [série “O Mochileiro das Galáxias”]

O tempo, como sabemos, é relativo. Você pode viajar anos-luz pelas estrelas e, quando voltar, se o fizer na velocidade da luz, estará apenas alguns segundos mais velho, enquanto o seu irmão gêmeo terá envelhecido vinte, trinta, quarenta ou sei lá quantos anos, dependendo da distância da sua viagem. Tudo isso pode ser um choque pessoal profundo, especialmente se você não sabia que tinha um irmão gêmeo.
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“Praticamente Inofensiva”, Douglas Adams [série “O Mochileiro das Galáxias”]

Aqueles que pensam que os regimes comunistas da Europa Central são obra exclusiva de criminosos deixam na sombra uma verdade fundamental: os regimes criminosos não foram feitos por criminosos, mas por entusiastas convencidos de ter descoberto o único caminho para o paraíso. Defendiam corajosamente esse caminho, executando para isso centenas de pessoas. Mais tarde, ficou claro como o dia que o paraíso não existia e que, portanto, os entusiastas eram assassinos.
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“A Insustentável Leveza do Ser”, Milan Kundera
